Ela foi vendida pela família por dez taéis de prata e, com a carta de rompimento de laços com aqueles parentes canalhas, foi toda contente para o casamento. A família inteira nem imaginava que ela, na verdade, era uma pequena rica. Só depois de se casar é que descobriu que o homem já tinha dois filhos e uma mãe idosa, paralisada na cama. Antes mesmo de consumar o casamento, o homem foi para a guerra. Depois de cuidar dos pequenos, ainda teve de servir a velha, e ninguém lhe foi grato por isso. Depois de entrar na família do marido, ela mudou completamente a imagem que tinha na casa dos pais e, em silêncio, passou a fazer uma fortuna. Isso ainda vá lá. Mas, três anos depois, o homem voltou com uma esposa delicada e um filho pequeno, querendo consertar a esposa. Consertar a esposa era impossível, se separar também era impossível; só restava consertar o marido, e ainda por cima exigir indenização por danos emocionais e pela juventude perdida. Depois de consertar o marido, os dois pequenos se agarraram a ela e começaram a chamá-la de mamãe sem parar. O primo do ex-marido veio atrás, posando de descolado e dizendo: “Esposa, você sempre foi minha.”
“Mãe, vocês me trouxeram hoje à cidade, mas já faz tempo que estavam pensando em me vender.” Quem falava era uma adolescente de pouco mais de dez anos, com os longos cabelos presos bem alto, o corpo magro e seco, vestindo roupas desbotadas de tanto lavar, remendadas sem conta e curtas demais.
A voz da menina era serena, sem revelar a menor emoção; seu ar frio destoava completamente das poucas pessoas ao seu lado.
Junto dela estava uma mulher de cerca de quarenta anos, além de outras duas meninas. Uma delas parecia um pouco mais velha que a que falava; tinha a pele morena, mas o rosto corado. A menor tinha a pele clara, igualmente tingida por um rosa saudável.
Ao lado da mulher estava também um menino, com cerca de oito ou nove anos, gorduchinho e de traços fofos.
Os quatro usavam roupas remendadas, é verdade, mas, comparadas às da menina que falara, eram infinitamente melhores: tinham menos remendos e, sobretudo, eram roupas do tamanho certo.
As cinco pessoas, reunidas ali, formavam um contraste gritante.
“Yao’er, não culpe sua mãe por ser cruel. Se houvesse outro caminho, eu jamais pensaria em vender você. Você mesma sabe como andam os tempos. Menos uma boca em casa é menos despesa. Sua mãe também não tem escolha.” A mulher falava com uma expressão cheia de constrangimento e fraqueza.
Para quem visse de fora, isso só despertaria mais compaixão.
Nos últimos dois anos, a colheita fora ruim; como a mulher dissera, em tempos assim, quem é que aceitaria vender filhos e filhas se ainda houvesse uma saída?
Ji Qingyao observ