He Sihai, conhecido como He Dali, é exímio na arte de cultivar a terra, carregar tijolos, contar vantagens, montar bancas, acumular dinheiro e cuidar de pessegueiros. Esta é apenas a história de vida “comum” de um “ser humano ordinário”. Mas também é uma narrativa sobre ajudar os mortos a realizar seus derradeiros desejos, conduzindo almas pelo limiar do além. Convido-o a buscar comigo a emoção oculta na rotina mais singela. Esta obra também é intitulada “A Vida Comum do Condutor de Almas”, “O Guia do Rio Amarelo”, “O Barqueiro dos Desejos” e “O Retrato do Condutor”.
Quando He Sihai saiu do canteiro de obras e voltou para o quarto alugado, sentia-se como alguém que acabara de sobreviver a uma grave enfermidade. A boca seca, a língua áspera, os membros enfraquecidos, e, por causa do sol abrasador, a pele avermelhada ardia com pontadas agudas.
Já fazia mais de dois meses que trabalhava naquele canteiro, mas ainda não conseguira se adaptar inteiramente à rotina. Não sabia se seria capaz de persistir, mas o labor incessante e o corpo exausto não lhe deixavam tempo ou energia para pensar, e assim, quase sem notar, fora avançando até ali.
Na verdade, ele nem ousava pensar. Pensar significava duvidar de sua própria capacidade de continuar vivendo aqueles dias.
Ao passar diante de uma loja de bebidas geladas, sentiu um sopro frio escapar do interior e refrescar-lhe o corpo, aliviando momentaneamente o calor abrasador. Olhou para o freezer exposto à porta, apalpou o bolso e encontrou uma nota de vinte, úmida de suor. Por fim, não se permitiu gastar aquele dinheiro numa garrafa de água mineral.
“Tudo enganação, é só água de torneira”, murmurou para si, consolando-se enquanto seguia adiante.
O calor era tamanho que suas roupas, ensopadas de suor, secavam rapidamente ao sol, deixando rastros esbranquiçados de sal.
O quarto alugado de He Sihai ficava longe dali, mas, para economizar uma moeda do ônibus, ele preferia caminhar.
Após andar cerca de duzentos metros, viu um velho catador de recicláveis descansando à sombra, sentado atrás de seu triciclo abarrotado.
Lançou um olhar preguiçoso para