Sou um escritor da internet do Império Celestial em 2022. Agora, após atravessar o véu do tempo, despertei no corpo de um jovem texano recém-graduado da universidade, no ano de 2000. Já que renasci, nada mais justo do que desfrutar plenamente dos prazeres da vida.
Agosto de 2000, Manhattan, Nova Iorque.
A chuva leve que caiu na noite anterior deixou o clima de Nova Iorque abafado e opressivo naquela manhã. Ontem, Abel Smith recebera um telefonema de seu velho pai, Alexander Smith. O progenitor pedira-lhe, com aquela insistência um tanto prolixa e dispensável, que, se tivesse tempo, voltasse à velha casa no Texas — e que, se não tivesse, não havia problema, que não precisava voltar. Palavras repletas de rodeios, desnecessárias, como sempre.
Após desligar, Abel Smith decidiu que faria a visita. Desde que se formara na Rice University, contrariando todos em casa, mudara-se para Nova Iorque, onde vivia há quase dez meses. Os pais já haviam lhe telefonado em outras ocasiões; na maioria das vezes, perguntavam se lhe faltava dinheiro ou se aguentaria a vida na cidade. “Se não der, volte para casa”, diziam. Afinal, na fazenda tinham mais de duas mil ovelhas, mil bois, cinquenta cavalos, mais de cem cães e seis mil acres de terra. Herdar o negócio da família garantiria, ao menos, que ele jamais passasse fome.
Mas nunca, até aquele momento, haviam lhe pedido que voltasse de maneira tão direta. Depois de ponderar, decidiu regressar à terra natal naquele dia. Arrumou às pressas duas mudas de roupa, atirou-as numa mochila simples e, ao preparar-se para deixar o quarto, uma voz levemente rouca, mas ainda assim melodiosa, soou às suas costas:
— Querido, por que acordou tão cedo? Vai aonde?
Abel Smith voltou-se, deparando-se com o rosto ainda envolto em névoa do sono da jovem de pele alva que espiava por entre os len