No décimo quarto ano do reinado de Zhenguan, o Príncipe Herdeiro Li Chengqian caiu do cavalo, perdeu o equilíbrio e, após prolongado tratamento, ficou coxo. Desde então, seu caráter distorceu-se, tornando-se sombrio e confuso. No décimo sétimo ano de Zhenguan, Li Chengqian tramou um motim, mas falhou; o complô veio à tona, e ele foi deposto ao status de plebeu, sendo exilado para Qianzhou. No décimo oitavo ano de Zhenguan, faleceu em Qianzhou. ... Na escuridão, Li Chengqian abriu lentamente os olhos. Uma alma oriunda de mais de mil anos no futuro, frustrada em sua tentativa de tomar posse de seu corpo, não apenas o trouxe de volta ao momento logo após a queda do cavalo no décimo quarto ano de Zhenguan, mas também lhe concedeu as memórias e conhecimentos de mais de um milênio vindouro. Desta vez, não apenas curaria sua perna ferida, mas também recuperaria, um a um, tudo aquilo que lhe fora destinado por direito. … — Chengqian, o que estás a fazer? — Peço a Vossa Majestade que viva dez mil anos! — Guardas, conduzam o Imperador Aposentado ao Palácio Wude! Wude: o único nome de era do Imperador Gaozu, Li Yuan.
Ano décimo quarto de Zhenguan, décimo mês de inverno.
O vento e a neve vinham do noroeste, transpuseram os altos muros da cidade e arremeteram diretamente contra o palácio imperial de Chang’an.
A cidade palaciana jazia sob um manto alvo, três dias sem cessar.
…
Ao décimo quarto dia, no ciclo gengshen, o vento e a neve enfim cessaram.
A luz da manhã estendeu-se pelos caminhos, as névoas dissiparam-se por fim.
Um raio de sol penetrou nos aposentos imperiais da ala posterior do Palácio do Príncipe Herdeiro, o Salão Cheng’en, incidindo com precisão sobre um espelho de bronze, de onde se refletiu e foi lançar-se sobre o leito.
Cortinas escarlates roçavam o chão, as velas palacianas haviam se consumido por completo.
Aquele raio de luz atravessou, sutil, a fenda das cortinas e pousou sobre a perna envolta em linho branco.
Não havia mais sinal de sangue, a dor estava apaziguada.
No leito, Li Chengqian fitava, imóvel, a perna fraturada que repousara em convalescença por mais de meio ano; o olhar era sereno.
Ainda que não sentisse nada, ainda que persistisse o entorpecimento, seu coração, longamente temperado pelo exílio, tornara-se de uma frieza imperturbável.
Toda emoção que porventura brotasse das profundezas de sua alma, ele a suprimia com destreza.
Sim, por mais inverossímil que parecesse, ele havia retornado.
Ele realmente voltara.
Voltava ao tempo logo após a fratura da perna, quando a dor lancinante lhe açoitou os nervos sem trégua.
Mas, desta vez, Li Chengqian não se entregou à