Da supressão dos feudos na campanha Jingnan à mudança da capital e à revisão dos códigos; das cinco expedições contra a Mongólia às sete viagens ao sul dos mares, estive presente em todos os lugares, mas ninguém jamais soube da minha existência. Com o universo oculto na manga e trajando vestes bordadas sob o véu da noite, mantenho-me discreto! A discrição, afinal, é o verdadeiro caminho do poder.
Era pleno verão, e o sol ardente torrava as terras da prefeitura de Qingzhou, em Shandong, como se fosse um forno inclemente. Havia poucos dias, uma chuva torrencial caíra, deixando poças de água nas depressões da vila de Yunhe, mas, sob o sol impiedoso, a água logo se evaporou. O solo, ainda úmido e lamacento após a enxurrada, rendeu-se ao calor, rachando-se em crostas do tamanho da palma da mão. Os meninos, nus e de pés descalços, corriam alegres, arrancando as placas de barro para empilhá-las como telhas e brincar de casinha.
O calor era tamanho que, excetuando-se essas crianças cheias de vigor, os demais pareciam rendidos pela languidez, incapazes de reunir ânimo para qualquer atividade. A menos que precisassem trabalhar nos campos, todos procuravam refúgio à sombra das portas e dos fundos das casas, buscando escapar ao sufoco do verão. Nas ruas, quase não se via viva alma. Até os grandes salgueiros, cujas copas normalmente ofereciam sombra generosa, pareciam desfalecidos sob aquele clima infernal; seus ramos pendiam lânguidos, sem vida, e apenas as cigarras, ocultas entre as folhas, entoavam seu canto incessante, tornando o ambiente ainda mais sonolento.
Somente ao entardecer o calor começava a esmorecer. O sol, declinando a oeste, tingia o horizonte de um vermelho esfumaçado, e sobre a baía Zhaoyue, do vilarejo de Yunhe, o frescor tornava-se mais evidente, pois ali um braço do rio Mi formava uma enseada de cinco ou seis mu de extensão. O lugar era ornado de lótus, salgueiros e amoreiras, tornando-se um refúgio perfeito contra o calor.
Apesar disso